top of page

O Rasante das Aves

Foto do escritor: Carolini Melo
Carolini Melo
há 2 dias
3 min de leitura

Existe uma coisa que eu acho linda e que sempre me chamou muita atenção na natureza. Na minha cabeça, forma-se uma cena quase cinematográfica quando eu a vejo,  ainda mais se, no momento, eu estiver escutando alguma playlist instrumental.


Quando eu era criança, essa mesma imagem já me chamava a atenção quando aparecia ao fundo de alguma música no karaokê (hahaha, que nostalgia gostosa acabei de sentir). Às vezes, eu ficava mais encantada com as imagens passando na tela do que com a própria música que estava cantando.


Sim, como o título deste texto já diz, estou falando do rasante que as aves dão sobre um lago.


É difícil explicar o efeito que isso tem sobre mim, mas vou tentar fazer você imaginar uma cena para que consiga perceber um pouco da beleza que eu enxergo nela.


Imagine-se sentado em um banco diante de um grande lago rodeado de árvores ao entardecer. Com a claridade dos raios do sol, é possível distinguir nitidamente as diferentes cores de cada uma das folhas, seus formatos e também suas texturas. O céu começa a ficar rosado e todo esse entorno se reflete nas águas do lago.


Na superfície, o movimento natural da água, impulsionado pelo vento, produz aquelas pequenas ondulações contínuas que formam  uma espécie de gravura em movimento. Pra mim, inclusive,  há algo de hipnotizante nisso.


Imagine, então, que, depois de alguns instantes de contemplação, uma ave se desprende de uma das árvores e começa a sobrevoar o lago, cortando-o de um lado ao outro em um rasante sobre a água. Ela voa tão rente à superfície que, vez ou outra, a ponta das asas e as patas chegam a tocá-la. A cada toque, rompe-se delicadamente o desenho da água deixando para trás um pequeno rastro de ondulações que se formam em sequência e logo se desfazem novamente no lago.


Tudo acontece muito rápido, mas há tamanha leveza e precisão naquele movimento que os sucessivos encontros entre a ave e a água parecem quase que perfeitamente coreografados.

Talvez essa imagem não represente absolutamente nada para algumas pessoas, mas, para mim, ela tem um simbolismo gigantesco.


Sempre que presencio essa cena, um senso de beleza toma conta dos meus olhos. É um sentimento tão agradável que me transmite uma sensação de leveza, serenidade e liberdade.


É claro que, para a ave, há provavelmente uma finalidade muito mais concreta e nada emocional. Ela pode, por exemplo, estar buscando algum inseto ou outro alimento na superfície, bebendo água ou simplesmente se deslocando de um ponto para o outro.


No entanto, para os olhos de alguém como eu, o efeito é muito menos prático.


A imagem é tão bonita que, na minha cabeça, é como se a ave aproveitasse de forma magnífica todo o trajeto até o outro lado do lago. Como se ela não estivesse apenas atravessando, mas curtindo enquanto atravessa, entende?! Inclusive, por alguns segundos, aquela leveza que pertence ao movimento da ave, ao sobrevoar com tamanha delicadeza a surfície do lago, parece ser experimentada também por mim.


Percebo que nada disso está necessariamente na ave ou no ambiente em si, mas nasce do encontro entre um olhar disposto a perceber beleza e uma imaginação sensível, capaz de atribuir significado àquilo que observa.


Para que aquele simples rasante se transformasse em tudo isso aos meus olhos, foi preciso, antes de qualquer coisa, parar para realmente olhar. Estar presente o suficiente para contemplar e me deixar afetar por ele.


Afinal, a ave apenas existe e faz o seu movimento. A água apenas responde ao vento. As árvores estão simplesmente ali. Mas, quando realmente paro para contemplá-los, esses pequenos acontecimentos deixam de ser apenas coisas que acontecem diante dos meus olhos e passam a ser instantes extraordinários carregados de significado.

Comentários


Não perca os novos conteúdos!

  • Spotify

©2023 por Carolini Melo, TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

bottom of page