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O Amor Materialista de Machado de Assis

  • Foto do escritor: Carolini Melo
    Carolini Melo
  • há 20 horas
  • 7 min de leitura

Sim, eu não acho a relação de Guiomar e Luis virtuosa ao contrário do que muitas pessoas defendem na internet e vou explicar o porquê.

A narrativa do livro parece simples, mas é cheia de boas nuances. Guiomar, a personagem principal, se vê diante de uma escolha amorosa entre três pretendentes:


Estêvão - representando o amor impulsivo, idealizado e quase ingênuo, marcado por romantismo exacerbado, caricato, que, nos dias de hoje, traduziríamos como alguém que sofre de apego ansioso, pela alta projeção e idealização de um outro que nem sequer se conhece.


 Jorge – representando uma opção conveniente, devido à sua posição social. No entanto,  trata-se de um personagem pouco admirável que, além de não ter grandes qualidades, é ainda muito mimado, acomodado e preguiçoso.


Luís Alves – O homem ideal, um unicórnio (haha). A personlidade ambiciosa, racional, controlada e segura. Um homem com admiráveis qualidades, seguro de si e resoluto.


Ao final, Guiomar, que também tem uma personalidade muitíssimo admirável (aliás, inteligentíssima, calculista e muito determinada) escolhe Luís. E é exatamente aqui que mora o problema.

A maioria das interpretações desse livro apontam esse desfecho como algo bonito, correto e até mesmo elevado. Um casal que se entende, que se encaixa e que decide construir uma vida sólida. Muitos leitores são levados a concluir que é neste casal que se encontra a forma mais madura e, quem sabe, até mais verdadeira de amor.

No entanto, essa conclusão, embora sedutora, é profundamente equivocada. Na minha opinião, é claro. (O que não vale muita coisa, mas continue lendo que vai valer a pena haha)

A união dos dos dois não representa o amor no sentido mais elevado. É algo mais sutil, mais refinado e, justamente por isso, mais difícil de perceber. O encontro entre Guiomar e Luís não é aquele encontro alicerçado sob as pilastras da virtude. Trata-se, na verdade,  de um perfeito ressoar de duas estruturas internas semelhantes.

Eles não se escolhem pela percepção daquilo que há de mais elevado no outro, mas porque enxergam um no outro aquilo que desejam para si e para seus próprios futuros. É quase que uma decisão puramente material selada pelo ego, ainda que em um nível bemmm sofisticado. E é por isso que não se trata de amor em seu sentido mais elevado, entende?

Para fundamentar a defesa dessa minha tese, vou me valer aqui daquilo que já ensinava Aristóteles em seu clássico Ética a Nicômaco. O filósofo distingue três possíveis tipos de vínculo humano: o vínculo pelo prazer, pela utilidade e pela virtude.

O vínculo pelo prazer nasce das sensações que outro é capaz de despertar em nós e se estabelece a partir do agrado que o outro nos proporciona, sustentando-se somente enquanto essa experiência permanece. Tende a ser intenso e totalmente instável.

Já o segundo tipo, o vínculo pela utilidade, corresponde a uma relação que se sustenta enquanto o outro se mostra útil à realização dos nossos interesses, sejam eles mais imediatos ou mais sofisticados (estabilidade, status, segurança ou qualquer outra forma de vantagem). Pode até ser estável por um tempo, mas tem um alicerce muito pobre para suportar uma relação a longo prazo.

Por fim e o mais importante é o vínculo pela virtude, que não se estabelece naquilo que o outro é capaz de nos proporcionar, mas naquilo que ele é em sua própria essência. Trata-se de reconhecer o bem no outro enquanto bem e de desejá-lo por si mesmo, independentemente de qualquer vantagem. É uma relação em que o outro não é meio, mas fim.

Quando olhamos para Guiomar e Luís Alves, à luz do que afirma Aristóteles, a conclusão se torna inevitável. A união dos dois não se baseia na virtude, mas numa forma elevada de utilidade. Não num sentido ruim e vulgar, mas no sentido mais sofisticado possível. Na história, um reconhece no outro a capacidade de realização, de ascensão e construção de uma vida que corresponde exatamente ao que ambos valorizavam e buscavam. Eles não se escolhem apesar disso. Eles se escolhem por causa disso. Consegue perceber a diferença sutil??

E o próprio texto, a todo momento, deixa isso evidente. Não é o encontro de dois corações que o narrador descreve, mas o encontro de duas ambições. Não há ali linguagem de entrega, de transcendência ou de reconhecimento moral profundo. O que há é alinhamento, projeto, pacto e uma direção comum.

É descrito para parecer certo, justo, bonito e harmônico, mas é preciso ter coragem de dizer: essa não é uma história de amor no sentido mais elevado. É a história de um encontro utilitário refinado, coerente e bem-sucedido.

Apenas a título de contraposição, cabe esclarecer que um amor pautado na virtude exigiria outra postura. Exigiria reconhecer no outro algo que não pode ser reduzido a projeto, utilidade ou conveniência. Exigiria desejar o bem do outro enquanto fim, e não como extensão de si mesmo ou dos prórprios ideais. Exigiria uma linguagem diferente, menos instrumental e mais orientada àquilo que é, de fato, essencial.

Para perceber essa grande diferença, você pode voltar ao livro quantas vezes quiser e reler cada trecho narrado não só sobre a personalidade dos dois personagens, mas principalmente dos momentos derradeiros onde ambos decidem que se amam. São vários parágrafos que denunciam a tese que estou propondo, tal como o trecho final da obra:


— Vi que você era homem resoluto, disse a moça (Guiomar) a Luís Alves,

que, assentado, a escutava.

— Resoluto e ambicioso, ampliou Luís Alves sorrindo; você

deve ter percebido que sou uma e outra coisa.

— A ambição não é defeito.

— Pelo contrário, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de fazê-la vingar.

Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me também em você, que há de ser para mim uma força nova.

— Oh! sim! exclamou Guiomar. E com um modo gracioso continuou: — Mas que me dá você em paga? um lugar na Câmara? uma pasta de ministro?

— O lustre do meu nome, respondeu ele.


Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixouse cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão.

 

Veja o quão sutil é isso aqui. Em resumo, esse trecho quer dizer exatamente que ele a reconhece como parte de sua força para alcance de algo pessoal, e ela o reconhece como via de ascensão. Até é moralmente adequado e interessante, mas é essencialmente materialista em essência. Não há qualquer vislumbre de que um queira o bem maior do outro num nível mais elevado. Há apenas apenas um pacto utilitarista selado com um ósculo fraternal.

E é aqui que entra alguns questionamentos INQUIETANTES.

Como é possível que não sejamos capazes de perceber essa nuance? Por que a dificuldade de reconhecer o que é ou não virtude?

Por qual motivo confundimos e aceitamos como algo virtuoso toda utilidade suficientemente sofisticada, aparentemente bela e socialmente conveniente??

Fato é que a história da união de Guiomar e Luís Alves continua sendo lida com certa admiração. No entanto, o fato de se tratar de indivíduos com personalidades admiráveis, com certo grau de virtude, não torna, por si só, o amor que os une, nem a própria união, verdadeiramente virtuosos. Pelo contrário, trata-se da mais pura descrição de uma relação fundada na conveniência. Um amor entendido como cálculo, não como entrega. 



EXTRAPOLAÇÃO


Sim agora vem meu momento de dar aquela extrapolada básica, rs. Afinal, não decidi escrever tudo isso apenas ao acaso. Jamais!!!! A proposta aqui é fazer uso daquilo que a literatura tem de mais valiosa: servir como uma lente para enxergar a vida real.

Vemos, com frequência, pessoas comentando sobre a dificuldade de encontrar sua “metade da laranja”, o tão desejado “grande amor”, e até mesmo de construir relacionamentos duradouros.

A julgar pelo fato de que muitas pessoas acham a união de Guiomar e Luis virtuosa, já podemos ter uma ideia de que algo de errado definitivamente não está certo na nossa sociedade.

Se Guiomar passou a ser vista como um exemplo admirável por sua postura calculista e racional, a transposição dessa lógica para os dias de hoje se revela na crescente quantidade de pessoas que afirmam “saber exatamente o que querem” e se orgulham de serem decididas, assim como ela.

No entanto, o que vemos hoje é que esse “saber o que se quer” tem se traduzido, na prática, em uma lista de exigências essencialmente materialista, que acaba gerando justamente o efeito oposto ao esperado. Em vez de ser uma espécie de produto legítimo do autoconhecimento, ele se transformou em um inventário complexo  de critérios.

Quem aqui nunca viu alguém que está procurando um relacionamento mencionar uma listinha de critérios a ser preenchido??

Eu escuto aos montes:

“tem que ganhar no mínimo X; ser bem-sucedido; tem que ter ambição; ser independente; ser de tal idade; ter determinada estatura; ser atlético; gopstar de correr no parque; gostar de acordar cedo; não pode ser careca;  tem que ter hobbies; tem que ser viajado....” E a lista segue indefinidamente.

Já vou me adiantar aqui que, querer ter alguns critérios não é errado. O problema está em torná-los princípios estruturantes na busca do amor, fazendo com que o outro deixe de ser alguém que deve ser conhecido para ser somente alguém que está sendo avaliado.

No fundo, já não se busca o amor em seu sentido mais elevado como entrega e reconhecimento de algo que transcende o próprio indivíduo, mas a projeção de um ideal previamente construído, ao qual o outro deve se ajustar.

E essa loucura coletiva foi contada com muita precisão, recentemente, no filme Amores Materialistas. Embora não seja, a meu ver, o melhor filme do ano, rsrsrs, vale a pena assistir para conferir a maestria com a qual o enredo escancara a hiprocrisia na forma como se busca o “amor” nos dias de hoje. A narrativa descreve que o vínculo amoroso deixou de ser um encontro e passou a se aproximar de uma escolha estratégica, orientada por conveniência, status e projeções de futuro.

Coincidência ou não, o filme não é outra coisa senão a atualização moderna daquilo que Machado de Assis já denunciava em A Mão e a Luva.

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