O que é Filosofia, para mim?

Atualizado: 24 de jun.
Um instrumento que serve para nos GUIAR!!
Hoje eu vejo a vida como uma trajetória que se aproxima, ipsis litteris, do mito da caverna de Platão. Se você ainda não o leu, recomendo que o faça, pois não pretendo recontá-lo aqui, mas apenas utilizá-lo como uma analogia para descrever o processo que enxergo no desenvolvimento da vida de todo ser humano.
Todos nós nascemos e crescemos dentro da nossa própria caverna. Somos condicionados desde cedo a acreditar que o mundo é exatamente aquilo que nos apresentam. Absorvemos ideias, valores, crenças e costumes como se fossem verdades incontestáveis, sem perceber que muitas delas nos foram simplesmente impostas. Passamos anos olhando apenas para as sombras projetadas diante de nós e, justamente por nunca termos conhecido outra perspectiva, confundimos essas sombras com a própria realidade.
Algumas pessoas atravessam toda a existência dentro dessa caverna e morrem sem jamais contemplar a verdadeira luz da realidade. Podem até se considerar iluminadas e conscientes, mas a verdade é que vivem confortavelmente, dentro da própria ignorância, cercadas por certezas que nunca foram questionadas e por respostas que nunca decidiram investigar. Sendo a ignorância, nesse sentido, não é apenas ausência de conhecimento, mas principalmente a incapacidade de perceber que existem perguntas necessárias que nunca foram feitas.
No entanto, há aqueles que, por uma razão ou outra, conseguem romper as correntes que os mantinham presos e encontram uma saída. Às vezes por meio de uma experiência dolorosa, uma perda, um rompimento ou algo que abale os alicerces da "realidade" vivida; às vezes por meio de livros ou conversas; ou simplesmente por meio de uma inquietação interna que faz com que o indivíduo comece a reconhecer a escuridão na qual se vive, dando início à recusa de continuar aceitando viver de sombras projetadas.
Seja qual for o motivo, o primeiro passo para fora da caverna é sempre suscitado por um ato de coragem. No entanto, abandonar a escuridão não significa encontrar imediatamente a clareza plena.
Pelo contrário! Para quem passou tanto tempo habituado às sombras, o contato com a luz é quase insuportável. Ela ofusca, confunde e até machuca. Aquilo que antes parecia sólido começa a desmoronar, e a mente precisa reaprender a enxergar um mundo completamente diferente daquele ao qual estava acostumada. No início é tudo fragmentado e não plenamente visível. E é justamente sob essa perspectiva que costumo compreender a serventia da filosofia.
Nos primeiros momentos da vida pós-caverna, ela funciona como um par de óculos que nos permite adaptar gradualmente a visão à intensidade dessa luz que quase nos cega. Em vez de eliminar o desconforto, ela o torna suportável e inteligível. A filosofia se torna nossa aliada, nosso instrumento de proteção e de interpretação diante de um ambiente desconhecido e profundamente transformador.
Aos poucos, porém, conforme nos habituamos à claridade e começamos a distinguir os contornos da realidade, a filosofia deixa de cumprir apenas essa função adaptativa. Ela passa a atuar como um GPS, oferecendo coordenadas, sugerindo caminhos possíveis e mostrando diferentes rotas que podem ser percorridas. Não escolhe por nós o destino nem conduz os nossos passos, mas amplia nossa capacidade de decidir conscientemente para onde queremos seguir.
Depois que descobrimos nossa rota, a filosofia assume uma nova forma: transforma-se em um barco potente que nos fará navegar pela realidade da melhor maneira possível até encontrarmos o destino inevitável de toda a existência, que é a morte. As tempestades continuarão existindo, os ventos mudarão de direção e o mar jamais deixará de ser imprevisível, mas é esse barco que nos oferece os instrumentos necessários para atravessar a jornada com mais lucidez, equilíbrio e sabedoria.
Por isso, vejo a filosofia, como um instrumento imprescindível da arte de viver a vida. Pouco importa se estamos falando de uma tradição ocidental ou oriental, antiga ou contemporânea. Em qualquer uma delas, a filosofia exerce o mesmo papel essencial de servir como um guia para aqueles que desejam sair do breu da própria ignorância e querem aprender a navegar pelo mundo da forma mais consciente possível durante o tempo que lhes for concedido.
"A filosofia não visa assegurar qualquer coisa externa ao homem. A matéria-prima da arte de viver é própria vida de cada pessoa"
- Epicteto
"O verdadeiro conhecimento vem de dentro"
"Conheça-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses"
- Sócrates
.jpg)

Comentários